"Ai dona fea, foste-vos queixar"- análise da obra

 De onde surgiu a poesia trovadoresca?:

   A chamada mulher petrarquista nasce sob a influência do poeta italiano Francesco Petrarca, que um dia, em 1327, viu Laura alguém que nunca conseguiu superar. A partir daí, construiu uma poesia marcada por um amor platónico, intenso e impossível . Mesmo após a morte de Laura, em 1348, Petrarca continuou a cantá-la até ao fim da vida, o que mostra uma dedicação admirável e dificuldade em seguir em frente.

   Dessa idealização surge um modelo feminino quase “inalcançável : olhos claros, pele branca, cabelos loiros, uma figura etérea, perfeita, quase divina. Um símbolo de perfeição a qual a própria natureza se altera variante do seu estado de espírito. Petrarca é o pai das cantigas trovadorescas de amor mas a poesia adaptou-se para poder também criticar como é o caso desta.

 

 Introdução quanto à estrutura:

   Esta cantiga está integrada nas cantigas de escárnio e maldizer. A cantiga é constituída por três coblas  de cinco versos (quintilha) e um refrão monóstico (estrofe constituída por um único verso). Quanto às sílabas métricas existem nesta cantiga versos decassilábicos e eneassilábicos e no refrão temos versos octossilábicos.                  

                                                                                   Ai dona fea, foste-vos queixar   

Ai dona fea, foste-vos queixarA

que vos nunca louv'en (o) meu cantar;A

mais ora quero fazer um cantarA

em que vos loarei todavia;B

e vedes como vos quero loar;A

dona, velha e sandia!B


Dona fea, se Deuss mi perdom,C

pois havedes (a)tam gram coraçomC

que vos eu loe, em esta razom,C

vos quero já loar todavia;B

e vedes qual será a loaçom:C

dona fea, velha e sandiaB

dona, velha e sandia!B


Dona fea, nunca vos eu loeiD

em meu trobar, pero muito trobei;D

mais ora já um bom cantar fareiD

em que vos loarei:D

dona fea, velha e sandia!C

  Conteúdo do texto e o que é satirizado

   Esta cantiga procura satirizar e parodiar o amor cortês, com foco no elogio exacerbado da mulher amada e o enaltecimento de uma mulher que não tem atributos para merecer ser cantada, nomeadamente a beleza pelo que é descrita como feia (o que é evidenciado pela apóstrofe "dona fea"). Podemos observar este sátira nas seguintes passagens destacadas no texto a amarelo. Nestas linhas, "Dona fea, nunca vos eu loei em meu trobar," é evidenciada a relutância do trovador em cantá-la porque não merece. Observamos a ridicularização da "dona fea"  que pede uma cantiga de amor e recebe em troca uma de escárnio. 
  A crítica é feita aos códigos poéticos das cantigas de amor.

   O refrão, "dona fea, velha e sandia!", exprime uma enumeração e simultaneamente uma adjetivação que reforçam as características da destinatária do poema. Estas características são opostas ao modelo feminino cantado nas cantigas de amor como já referido. O modelo feminino assenta na mulher renascentista, uma combinação de beleza, influência e inteligência, frequentemente retratada como loira de pele e olhos claros. De modo geral, a mulher renascentista é o retrato da perfeição (o panegírico da mulher amada) e, por isso, inalcançável. Portanto, a mulher descrita é o oposto total da mulher cantada o que engradece a crítica e a ironia.
 
 Conexão com cantigas de amor (e porque não é uma)
   
    A cantiga "Ai dona fea, foste-vos queixar" aproxima-se do amor pelo elogio cortês onde um sujeito masculino, o eu-lírico, assume a posição de vassalo e elogiava exageradamente a mulher amada, colocando-a num pedestal. Observa-se a relação invertida da estrutura feudal. aqui a "senhor" é a mulher e o vassalo é o poeta. 
    É uma cantiga de escárnio e maldizer porque: o travador claramente ironiza a mulher cuja qual não ama; o trovador apenas assume uma posição de suposta vassalagem para melhor satirizar a "dona fea"; a mulher cantada em nada condiz com o modelo feminino das cantigas de amor. 




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