Análise da crítica de “A Mosca”- Arábia Saudita
Este sketch de “A Mosca” , feito por Luís Afonso, denominado de "Arábia Saudita" apresenta um diálogo entre dois insetos acerca do desenvolvimento de um grandioso prédio com cerca de 1 km de altura. O sketch tem com objetivo criticar a opressão à mulher.
Após um olhar mais atento, torna-se possível identificar o inseto que inicia a conversa como uma mosca e o outro inseto um mosquito. O fundo branco tem um papel essencial no destaque das personagens além de conferir simplicidade ao sketch com um todo.
O diálogo decorre do seguinte modo:
-Na Arábia saudita começaram a construir um edifício com um 1 quilómetro de altura. (Mosca)
-Bem, pode ser que um dia destes deixem as mulheres ter um salário, viajar sozinhas, conduzir carros… (Mosquito)
-... Achas que o progresso vai subir assim tão alto? (Mosca)
O elemento humorístico desta obra de Luís Afonso encontra-se no contraste entre os avanços na engenheira e na construção de grandiosos edifícios que ostentam luxo e, por outro lado, a lembrança de direitos básicos, ainda grandiosamente negados ou historicamente limitados às pessoas que lá habitam, como a autonomia das mulheres.
Inicia-se o diálogo com uma observação aparentemente neutra sobre o avanço tecnológico na Arábia Saudita quando iniciam a construção de um edifício com um quilómetro de altura. Esse feito é rapidamente desmontado por uma resposta feita pelo mosquito que desloca o foco do progresso tecnológico para o progresso social. O contraste entre estes progressos gera o riso. Quando se fala do edifício enorme como sinal de progresso, a resposta do Mosquito relembra que o desenvolvimento não é só tecnologia ou construções impressionantes. A crítica é finalmente rematada pela pergunta retórica com tom irónico “Achas que o progresso vai subir assim tão alto?” da Mosca. Cria-se uma metáfora entre altura do edifício e a distância entre o ritmo de desenvolvimento económico e social. Deste modo o “progresso” deixa de ser celebrado e passa a ser questionado quanto à moralidade.
Do ponto de vista da crítica, o sketch aborda um tema bastante complexo ( a desvalorização dos direitos humanos e sobrevalorização de desenvolvimento tecnológico a todo o custo) de forma simples e subtil condizendo com o estilo de animação. Aos contrastar estas duas realidades o autor atinge um efeito no espectadores de reflexão imediata. Este sketch de “A Mosca” insere-se no tipo de críticas humorísticas mas que geram desconforto persistente após reflexão acerca da crítica. É claro a crítica pretendida, a inexistente igualdade de género, mesmo em sociedades que se consideram avançadas.
Se formos tentar ler entre as linhas, podemos ver a situação dos direitos da mulheres e a igualdade em relação aos homens usando aquela expressão "talvez um dia lá cheguemos", um futuro distante como um arranha-céus de um 1 quilómetro de altura. A igualdade de género não aparece automaticamente com o desenvolvimento da sociedade a nível das habilidades e conhecimento mas sim de luta e protestos daqueles que desejam viver essa realidade. Direitos como votar só foram concedidos á mulher em 2015. Apenas a dezembro de 2015 puderam votar as cidadãs da Arábia Saudita. A pergunta final “Achas que o progresso vai subir tão alto?”, incita a contemplação do nosso estado enquanto sociedade e se estamos realmente a avançar em todos os aspetos.
Concluindo, a crítica neste cartoon é extremamente rica apesar do estilo de animação simples e do diálogo composto por três linhas. Rapidamente se percebe a crítica, será o progresso tecnológico equivalente a progresso social sendo neste caso o objetivo atingir a igualdade entre géneros? E se este progresso não leva ao outro, quanto tempo para alcançar esse patamar?
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