O que torna uma obra literária controversa?

   O que torna uma obra literária controversa? Haverá resposta?! Uma obra torna-se controversa quando desafia, provoca desconforto ou levanta questões que muitos prefeririam evitar. A polémica na literatura nasce, quase sempre, do confronto entre a obra e os valores da sociedade em que surge, mas a sociedade varia muito ao longo do tempo. 

   Em primeiro lugar, a temática desempenha um papel fulcral. Assuntos considerados tabu (caso do livro "Lolita") como sexualidade, religião, política ou desigualdades sociais são os que despoletam as reações fortes procuradas. Quando um autor decide abordar esses temas de forma direta ou crítica, pode facilmente chocar leitores e instituições. Foi o que aconteceu, por exemplo, com obras como "Os Maias", de Eça de Queirós, que expõe de forma crua a hipocrisia da sociedade portuguesa do século XIX, ou com" Frei Luís de Sousa", de Almeida Garrett, onde o conflito entre moral, religião e sentimentos cria um forte impacto emocional e ético. Mas podemos ver estas obras como controversas?

   Atualmente, estas já não são obras controversas, de tal modo a serem estudadas nas escolas pelo o que as podia tornar controversas, o tema de amor proibido e patriotismo.

   Além dos temas, a forma como a história é contada também pode gerar controvérsia. Estruturas narrativas muito inovadoras para a época ("Animal farm" pelo reaproveitamento dos princípios das fábulas para fazer uma crítica política), linguagem explícita ou a quebra de convenções literárias tradicionais podem causar estranheza e rejeição. Muitas vezes, aquilo que hoje é considerado inovador foi, no seu tempo, visto como excessivo ou inadequado. O livro "1984" por George Orwell, lançado a 8 de junho de 1949, é uma distopia que aborda a opressão, controlo governamental e propaganda política. A história decorre em Londres ano de 1984 em que o protagonista rebelde coexiste com um regime totalitário que vigia a população constantemente e os impede de ler livros para não aprenderem ("Big brother is watching you"). Este tema gerou uma forte crítica à manipulação governamental e os perigos do autoritarismo e da vigilância excessiva. Aquando do lançamento o livro era enormemente polémico porém agora considera-se um clássico da literatura, uma das melhores obras de sempre .A literatura, ao reinventar-se, desafia continuamente os limites do que é aceite.

   Outro fator importante é o contexto histórico e cultural. Uma obra pode não ser polémica em si, mas tornar-se controversa devido ao momento em que é publicada. Ideias que contrariam o pensamento dominante  seja ele político, moral ou religioso  tendem a ser alvo de críticas ou até censura. Ao longo da história, muitos livros foram proibidos precisamente por questionarem autoridades ou exporem injustiças. Um exemplo válido seria a obra "De revolutionibus orbium coelestium", publicada por Nicolau Copérnico em que prova o heliocentrismo num período em que o modelo aceite era o geocentrismo, o que causou polémica sem ser necessariamente polémico. 

   A reação do público também é determinante. Nem todas as obras provocadoras geram polémica. As reações dos leitores, críticos e instituições são determinantes para definir o grau de controvérsia. Uma mesma obra pode ser admirada por uns e rejeitada por outros, o que demonstra que a literatura é subjetiva e uma oportunidade de debate.

   Gostaria de destacar que a controvérsia não é necessariamente negativa. Pelo contrário, muitas vezes é sinal de relevância. São as obras controversas que obrigam a discussão, questionar certezas e estimular o pensamento crítico (por exemplo "Frankenstein" que questiona os limites do conhecimento científico). Ao provocar desconforto, obrigam o leitor a refletir sobre si próprio e sobre a sociedade em que vive.

   Concluindo, uma obra literária torna-se controversa quando rompe com expectativas, desafia valores da sociedade numa determinadas altura e/ou gera debate. A capacidade de inquietar o leitor é vital na imortalização de obras porque se pensam nelas, ainda que de forma negativa, não vão ser esquecidas. Afinal, são frequentemente as obras mais polémicas que deixam marcas mais profundas e duradouras na cultura e na forma como vemos o mundo.

 


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