Simbolismo e referências na obra "Frei Luís de Sousa"
Na obra "Frei Luís de Sousa", de Almeida Garrett, o simbolismo e as referências literárias desempenham um papel fundamental na
construção e desenvolvimento da trágico e na caracterização das personagens. Diversos elementos simbólicos como o incêndio, os retratos ou os espaços contribuem para
intensificar a fatalidade imparável.
A obra é fortemente influencia, em toda a sua extensão, por numerologia e pela escolha de um dia fatídico, a sexta feira. Deste modo, são estes os pontos críticos influenciados:
- D. Sebastião morre numa sexta-feira há 21 anos atrás relativamente ao presente da obra.
- D. João I desaparece numa sexta-feira juntamente com D. Sebastião
- Madalena viu Manuel pela primeira vez numa sexta-feira
- O primeiro e o terceiro ato iniciam-se numa sexta-feira
- D. João I regressa numa sexta-feira após 21 anos
- Madalena procura por D. João I por 7 anos até desistir
- Madalena casa com Manuel ao fim de 7 anos de buscas pelo primeiro marido
- O casamento entre Madalena e Manuel dura 14 ano.
- Maria, filha de Madalena e Manuel, morreu aos 13 anos
- 7: Representa o fim de um ciclo periódico (ciclo lunar, ciclo de regeneração celular, fim da semana). Nesta obra o 7 é um fatal.
- 7*2: Dupla felicidade.
- 7*3: Como nesta obra o 7 é fatal e 3 o número perfeita, a sua multiplicação simboliza a fatalidade perfeita.
- 3: Número da criação e círculo perfeito (fases da vida- nascimento, crescimento e morte).
- 13: Conotação negativa, número do azar, devido a convenções sociais.
No início do segundo ato, existe um paralelismo
estrutural com o primeiro ato, criado pelas referências literárias. No Ato
I, D. Madalena lia Os Lusíadas, evocando a grandeza do passado português
através de Luís de Camões e as simultaneamente às mágoas do amor fatal (Episódio de Inês de Castro), logo a utilização desta referência não só reflete o estado de espírito de Madalena (medo, sofrimento) como serve também de indício de tragédia. No Ato II, Maria cita "Menina e Moça", de
Bernardim Ribeiro, outro indício de tragédia, visto que é uma novela sentimental trágica com tom fatalista em que antecipa um desfecho
doloroso.
Ainda no segundo ato, os retratos presentes na casa de D. João I de Portugal portam um grande significado para além de permitirem compreender as personagens. Quando Maria vê o retrato de D. Sebastião e o interpela como "meu querido e amado rei D. Sebastião" torna-se claro o discurso Sebastianista e a esperança de reaver a antiga, gloriosa e independente pátria (Portugal antigo). Entre os retratos, destaca-se o de D. João I de Portugal, que desperta admiração de Maria por reconhecer a pessoa. Este acontecimento dá a conhecer bastante acerca das capacidades sobrenaturais de Maria e do seu futuro, porque identifica-o como quem a tira dos braços dos pais. Estes retratos representam a permanência do passado no presente, mostrando que este nunca foi verdadeiramente superado e sendo o elemento catalisador da tragédia iminente.
Ao longo do ato, intensificam-se também as tensões psicológicas e familiares. D. Madalena vive atormentada com a própria consciência, evidenciado pelo seu temor perante a evocação de D. João de Portugal, contrastando Manuel de Sousa Coutinho que está em paz com o passado e respeita o 1º marido de Madalena. Já Maria, portadora de uma sensibilidade e maturidade invulgares, oscila entre a admiração pelo passado e o amor pelos pais por perceber que um invalida o outro. Este conjunto de relações acentua a componente trágica e a constante sensação de destino inevitável.
A construção do clímax na cena do romeiro é outro momento de forte simbolismo. A revelação gradual da identidade que conduz ao reconhecimento de D. João de Portugal intensifica o sofrimento de D. Madalena e reforça a ideia de fatalidade. Outro momento bastante simbólico encontra-se na resposta "Ninguém" por parte de D. João I quando lhe questionam quem é. O uso de uma linguagem fragmentada e acelerada traduz o seu estado emocional sublinhando a perda de identidade da personagem regressada, que já não encontra lugar no mundo que deixou, , indicando forte desassociação com quem foi e perda da outrora identidade.
No Ato III, a mudança para um espaço sombrio e ligado ao
convento simboliza o desfecho trágico: a renúncia e o afastamento
da vida mundana. Este cenário, tal como os anteriores, não é neutro, mas
reflete o destino das personagens, a personalidade do dono da propriedade e a inevitabilidade da tragédia.
Concluindo, na obra "Frei Luís de Sousa" constrói-se através de
uma rica simbologia e referências literárias a realidade e o presságio das personagens. Elementos como o incêndio, os retratos, os
espaços e as citações de obras clássicas contribuem para o aprofundamento parte trágica da existência em que as personagens se encontram, vítimas um destino
inevitável, marcado pela culpa e pela impossibilidade de escapar
ao passado, lidando eventualmente à sua separação e morte física e emocional (somente Maria sofre ambas).
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