Será o suícido amoroso um ato de amor?

   


    Morreram todos. Esse é o fim da mais reconhecida tragédia romântica da história: "Romeu e Julieta". Esta obra ditou uma geração de tragédias românticas que têm tendência a seguir o mesmo modelo. Será o abdicar da vida pela dor da ausência de outro o derradeiro ato de amor?  

   A ideia de suicídio por amor tem sido, ao longo da história, frequentemente romantizada pela literatura, pelo cinema e por outras manifestações artísticas. No entanto, para se saber se o suicídio amoroso pode ser considerado um verdadeiro ato de amor é necessário primeiro refletir sobre o seu significado e sobre os valores associados.

   Uma pessoa que decide morrer por amor é retratada como vítima de um sentimento profundo e incondicional que por isso é irracional e decide por um fim a tudo. Tragédias românticas, como a de Romeu e Julieta, reforçam essa visão, vendo o suicídio como a prova máxima de entrega ao outro como se simbolizasse entregar o maior bem, a própria vida. No entanto, essa interpretação levanta várias questões morais: se o amor promove uma vida feliz deveria ser autodestrutivo?

    Na literatura portuguesa existe a tendência de categorizar o amor como paradoxal, de acordo com Luís de Camões o amor tem tanto o poder de extrema felicidade como de profunda angústia. Na realidade, o suicídio amoroso não é um ato de amor saudável. O amor saudável implica cuidado, respeito e valorização, tanto para o amado como para quem o ama. Quando é colocado o valor da própria existência  numa relação, estamos a perder autonomia e identidade, ou seja, dependência emocional. Neste contexto, o suicídio não é uma expressão de amor, mas sim o resultado de um sofrimento profundo, desespero e incapacidade de lidar com a dor causada pela perda ou a rejeição da conexão com a pessoa amada.

   Além disso, é importante ver o impacto desse ato nos ao redor. O suicídio não afeta apenas quem o comete, mas também familiares, amigos e a própria pessoa amada, que pode carregar sentimentos de culpa e dor durante toda a vida. Esta culpa é vista em "Romeu e Julieta", porque quando Julieta acorda e percebe que Romeu se suicidou ao pensar que ela estava morta, estava tão dependente do seu amor e a se sentir culpada pela sua morte que empunha o punhal de Romeu e crava em si. 

   Na minha opinião, um ato que provoca tanto sofrimento representa algo patológico e não uma forma de amor. Por outro lado, reconheço que quem cede não o faz por fraqueza, mas por estar num limite emocional, e que a vida perde o propósito quando o seu propósito era alguém. Apesar de ser irracional e definitivo, o ato tem o  seu valor no simbolismo que traz, como antes referido. A ideia de ter uma conexão mais valiosa que qualquer outra experiência na vida ,já que essa compensa tudo, implica dar a vida pela outra pessoa e não necessariamente perdê-la. Nesta visão, essa conexão é a razão de puder dizer que viveu em primeiro lugar. A sociedade devia desmistificar a ideia de que se deve sofrer por amor porque não é saudável como se observa em situações de abuso doméstico.

  Concluindo, o suicídio amoroso não deve ser encarado como um ato de amor, mas como um sinal de dor extrema e de ausência de alternativas percebidas. A aparente grandeza do gesto nas obras literárias pretende glorificar, na minha opinião, uma demonstração patológica do amor. Este ato tem o seu valor no simbolismo de dar a vida e abdicar da mesma por uma dependência emocional, não sendo o que entendo como "amor saudável". Desmistificar essa visão é mandatório para promover relações mais saudáveis e uma compreensão mais consciente dos sentimentos humanos.

   





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