Sermão de Santo António aos Peixes- Resumo esquemático

 

    Indíce

  • Contextualização
  • Tabela sobre os peixes
  • Diferença entre peixes e o Homem
  • Estrutura do Sermão
  • Como atinge objetivo persuasivo
  • Contexto cultural-Barroco
  • Conclusão da obra  

Contextualização:

Quanto à obra:

   O Sermão de Santo António aos Peixes é pregado em São Luís do Maranhão a 13 de junho de 1654, dia de Santo António. É de destacar que se trata de um texto de grande imaginação e de grande poder satírica e de uma fina ironia. De acordo com Rodrigues Lapa, o Sermão é classificado como “[…] uma obra prima do humanismo que, sob a aparência de brincadeira inocente deveria tocar profundamente os seus adversários e os da causa da liberdade que defendia.”. 

   O Sermão inicia-se a partir do conceito predicável “vos estis sal terrae” (S. Mateus, Vrs. 13) e vai progredindo sempre a partir deste tema, sendo todo ele tecido de alegorias; os vícios, os erros dos clonos, o pregador materializa-os em vários peixes que transfigura e humaniza: o roncador, o orgulhoso; o voador, o ambicioso; o pegador, o parasita; o polvo, o traidor, mais traidor que o próprio Judas. 

   O conceito predicável cria uma analogia entre o sal e os pregadores e o sal. Tal como o sal impede que a comida se estrague então os pregadores prestam a preservação dos ouvintes. É a este que cabe a impedir que o mal destrua a os seus ouvintes e sociedade. "Se o sal perder a substância, e a virtude, e o Pregador faltar à doutrina [...] há de fazer é lançá-lo for acomo inútil, para que seja pisado de todos." (Capítulo I); ou seja, se o Pregador se pregar a si ao invés da doutrina (palavra de Deus) deve ser expulso e ignorado. 


   Esta obra foi desenvolvida no período Barroco (entre os finais do século XVI até aproximadamente o século XVIII). As principais características:
  • Marcado pela arte da persuasão e da retórica ( Padre António Vieira estudou retórica ).
  • Gosto pela ostentação e na literatura transfiguração da realidade ou seja representação artificiosa de outra realidade.
  • Excesso- Linguagem hiperbólica (exagero da realidade)
  • Teatralidade- Jogo de aparências e ilusões
  • Sensorialismo- Tentativa e induzir aos sentidos (visão, tato, audição, etc.)

Quanto ao autor:

  • Padre António Vieira nasce em 1608 e é filho primogénito de Cristovão Vieira Ravasco e de Maria de Azevedo; nasce a 6 de fevereiro em Lisboa na freguesia da Sé.
  • Em 1614 desembarca com a família em São Salvador da Baía onde frequentar a sala dos jesuítas e aos 15 anos ingressa na Companhia de Jesus.
  • Com 18 anos, é encarregado de redigir a “Carta Ânua” ao geral dos jesuítas. É o seu primeiro texto escrito conhecido.
  • Em 1633 é transferido para o colégio dos jesuítas de Olinda onde dá aulas de retórica.
  • Em 1634 é ordenado sacerdote, a 10 de dezembro, celebrando a sua primeira missa no dia 13.
  • Em 1640 prega o Sermão Pelo Bom Sucesso Das Armas De Portugal Contra As Da Holanda. Em 1641 viaja para Lisboa onde residirá até 1646.
  • Em 1642, pela primeira vez prega, na Capela Real em Lisboa o Sermão Dos Bons Anos e em 1644 recebe o título pregador da sua majestade e é nomeado Tribuno da Restauração.
  • De 1646 a 1642 desempenha várias funções nomeadamente de Embaixador em diversas missões diplomáticas, na Holanda, na França, entre outras, ao serviço de D. João IV.
  • Em 1652, dentro da sua atividade diplomática Vieira representa e defende os interesses portugueses em Ruão e em Amesterdão onde negoceia com a comunidade judaica portuguesa aí refugiada, enfrentando a hostilidade do Santo Ofício.
  • Em 1644, prega o Sermão de Santo António Aos Peixes, três dias antes de ser ocultado para o reino, Lisboa, onde pedirá ao Rei providências favoráveis aos índios e às missões jesuítas.
  • Em 1645 durante a Quaresma prega na Capela Real em Lisboa o Sermão Sexagésima e o Sermão Do Bom Ladrão. Em 1661. Devido ao seu combate à escravidão dos índios, os jesuítas são empulsos do Maranhão e embarcados para Lisboa.
  • De 1663 a 1667, ele é desterrado para Coimbra onde começam os interrogatórios da Inquisição que os persegue devido às suas ideias messiânicas, inspirados no profetizo de Bandarra, além disso ele defendia o nascer do Quinto Império.
  • Em 1667 a Inquisição sentença que “seja privado para sempre da voz ativa e passiva e do poder de pregar”. Porém em 1968 é amnistiado a 12 de junho e um ano depois parte para Roma onde o Papa Clemente X o isenta “por toda a vida de qualquer jurisdição, poder e autoridade dos inquisidores presentes e futuros de Portugal”.
  • Em 1661 regressa à Baía onde desempenha inúmeras atividades entre os índios financiando-os com a venda dos seus livros.
  • Em 1697, morre, a 18 julho no Colégio do Jesuítas aos 89 anos e aí é sepultado. De acordo com Alves Mendes, no correio nacional de Lisboa em 1897, os índios inocentes do Brasil clamavam ao seu generoso Mestre “Grande Padre”. Refere mesmo que até hoje nenhum outro o ultrapassou na universalidade da grandeza; Alves Mendes redige “Que orador! Que escritor! Que sábio! Que apóstolo”


Tabela sobre os peixes:

Os virtuosos


Os Pecadores






Diferença entre peixes e o Homem:



Estrutura do Sermão:

Divide-se em quatro partes:

  • Exórdio: Apresenta o tema e solicita ajuda à Virgem Maria (Senhora do mar) para conseguir cativar a atenção dos ouvintes.
  • Exposição: Explica e desconstrói a estrutura do sermão.
  • Confirmação: Apresenta os argumentos.
  • Peroração: Resumo dos ensinamentos da doutrina (palavra de Deus) a manter.

 

Como atinge objetivo persuasivo:
 Vieira sabe retórica, algo que usa para persuadir neste sermão. O objetivo é alcançado quando junta à alegoria dos peixes os objetivos de eloquência. Os objetivo s de eloquência são: delectare, movere e docere.


Contexto cultural- Barroco:

  • Vieira vai viver em plena época barroca, que se fixa no século XVII mas que já vai ganhando forma nos finais do século XVI quando se assiste a uma reação contra os modelos clássicos. 
  • Em Portugal, a instabilidade política e social e a Inquisição geram uma Literatura glorificante do divino,  num desafio à forma, num apelo à visualidade e à magia do som. 
  • O Barroco caracteriza os estilos das artes plásticas, da literatura sua própria vida e opõem-se ao equilíbrio e harmonia clássicas. Foge à razão, ao equilíbrio dos conteúdos, das formas privilegiando-se as mais dinâmicas; as linhas curvas sobrepõem-se aos códigos clássicos.
  • No Barroco o indivíduo aparece na sua realidade de ser em si, libertando-se do academismo, num ato de rebeldia contra as regras, com um certo realismo trágico à vida e consciência da sua efemeridade.
  • O Barroco manifesta-se na lírica ou na prosa através de fenómenos de grande rigor externo e interno, o cultismo e o conceptualismo.
  • O cultismo é a tendência de usar e abusar de metáforas requintadas hipérboles, repetições e ritmos complicados de correspondências, hipérbatos, anáforas e antíteses, num malabarismo ou “culto das palavras”; é o apelo ao luxo à pompa do discurso, num jogo de palavras recorrendo a trocadilhos, parônimas e repetições. Veja-se o caso do segundo excerto do Sermão, no mar pescam as canas, na terra pescam as varas e há tantas espécies de varas [...] se eu pregar aos homens eu os fizera tremer” (capítulo 3).
  • Note-se que apesar de a nível literário Vieira se inserir no Barroco, isso não o impede de criticar os cultistas que usam o púlpito como uma charada isto é que usam de forma descarada do cultismo. 
  •  Observam-se ainda gradações encadeadas apoiadas por anáforas e onde o trocadilho realça a contradição do que acontece com os pequenos são “o pão quotidiano dos grandes e assim como o pão se come com tudo assim com tudo se comem os pequenos […] traguem e devorem tudo”(capítulo 3). 
  • Observa-se também um jogo de imagens e construções complicadas recorrendo-se a paralelismos, antíteses e anáforas.
  • Quanto ao conceptismo, este é o jogo de conceitos, de alegorias, de ideias rebuscadas. É uma verdadeira manipulação de conceitos ou ideias numa tentativa de mostrar a essência das coisas.    

Conclusão da obra

  • O pregador dirige-se novamente aos Homens, deixando claro que os “peixes” eram uma metáfora para a sociedade humana.
  • Denuncia os vícios e injustiças dos homens, mostrando que, ao contrário dos peixes elogiados, muitos agem com corrupção e crueldade por egoísmo.
  • Reforça a crítica à ambição, à exploração e à falta de moral, especialmente entre os "peixes grandes".
  • Apela à mudança de comportamento, incentivando uma vida mais justa, honesta e cristã.
  • Destaca que não basta ouvir sermões é necessário praticar o bem no dia a dia.
  • Termina reafirmando a função do sermão: denunciar os vícios e orientar os homens para a virtude.



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